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Não consigo confiar de novo: como a confiança se reconstrói

Ilustração: Não consigo confiar de novo: como a confiança se reconstrói

O celular dele vibra em cima da mesa e ela olha antes de pensar. Não é uma decisão, é um reflexo, como desviar de uma bola. Meia hora depois ela está se sentindo pequena por ter olhado, e ele está sentindo que nada do que faz é suficiente.

Faz oito meses que os dois decidiram continuar juntos. Ele cortou o que precisava cortar, mudou a rotina, avisa onde está. E ela continua acordando às três da manhã com o mesmo aperto.

A pergunta que chega até a gente é sempre parecida: se eu já perdoei, por que eu ainda não confio?

A cabeça decide antes do corpo

Perdoar e confiar acontecem em lugares diferentes de dentro da gente, e em tempos diferentes.

A decisão de ficar é da cabeça, e ela pode ser tomada numa tarde. A confiança mora no corpo, e o corpo funciona por evidência acumulada. Ele guarda um susto muito bem, principalmente um susto que chegou de onde vinha o cuidado.

Por isso a pessoa entende, racionalmente, que já passou, e ainda assim o peito dispara quando o outro demora a responder. Não existe deslealdade nisso. É um sistema de alarme que ainda não foi desarmado.

Nem toda desconfiança nasceu nesta relação

Tem uma parte disso que quase ninguém investiga, e que a gente vê o tempo todo nos atendimentos.

Muita gente já entra num relacionamento com a desconfiança pronta. A criança que ouviu a mãe chorando no telefone. A que cresceu ouvindo que homem é tudo igual, ou que mulher só quer se aproveitar. A que aprendeu, em casa, que o adulto de quem ela dependia podia sumir sem aviso.

Essa pessoa não desconfia do parceiro. Ela desconfia do amor, porque na imagem interna familiar dela o amor apareceu associado a perigo. Aí um atraso de vinte minutos é lido com a intensidade de uma traição.

Quando a desconfiança é mais velha que a relação, nenhum comportamento do outro vai ser suficiente para acalmá-la.

Vigiar não é o mesmo que confiar

A vigilância engana porque dá alívio imediato. Você checa, encontra tudo em ordem, e respira.

O problema é o que acontece na semana seguinte. Cada checagem ensina o corpo que ele só fica calmo quando confere, e a necessidade de conferir aumenta. Vira uma dívida que cresce.

E tem um custo a dois. Quem está sendo vigiado começa a esconder coisas inofensivas para evitar interrogatório, e essas pequenas omissões acabam confirmando a suspeita. Os dois passam a produzir juntos exatamente aquilo que temem.

O que reconstrói de verdade

Confiança não volta por promessa. Ela volta por repetição, e a repetição precisa de três coisas.

A primeira é previsibilidade. Combinados pequenos, cumpridos muitas vezes: o horário que foi dito, o telefonema que foi prometido, a informação que chega antes de ser pedida. É pouco romântico e é o que mais funciona.

A segunda é transparência oferecida, e não arrancada. Existe uma diferença enorme entre entregar o celular quando pedem e contar por conta própria com quem você almoçou. A primeira acalma por um minuto. A segunda constrói.

A terceira é o direito de falar da dor sem ser apressado. Quando quem machucou responde com "de novo esse assunto?", a ferida some da conversa e continua ativa por baixo. Casais que atravessam isso bem conseguem falar do que aconteceu sem transformar cada conversa num julgamento.

O que fazer com o alarme quando ele toca

Fica aqui um exercício que a gente propõe muito, e ele é para ser feito no momento em que o aperto chega.

Antes de perguntar qualquer coisa, pare por um minuto. Coloque a mão sobre o peito, respire, e nomeie por dentro: isto que eu estou sentindo agora tem que tamanho, e tem que idade?

Às vezes a resposta é clara, e a pergunta precisa mesmo ser feita. Às vezes o que aparece é uma sensação bem mais antiga, de quando você era pequena e ninguém explicou nada. Saber diferenciar as duas muda a conversa que vem depois.

Quanto tempo isso leva

Mais do que as pessoas gostariam, e menos do que elas temem quando estão no pior dia.

O sinal de que está andando não é a ausência do medo. É o intervalo entre os sustos ficando maior, e a recuperação ficando mais rápida. Um dia você percebe que o celular vibrou e você não olhou.

Se depois de meses não houver nenhum movimento, isso costuma dizer que existe uma dor mais antiga pedindo espaço, e ela não se resolve dentro da discussão do casal. Esse é o ponto em que uma ajuda de fora muda o jogo.

Quer dar um passo nesse tema?

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