Meu irmão tinha questões psicológicas sérias, mais tarde diagnosticadas. E eu era o bonzinho. Ele aprontava, e a família dava atenção, quarto só pra ele, viagens. Eu, obediente, quando pisava na bola, castigo. Cresci com uma sensação: o problemático é premiado, o bonzinho é punido.
Isso gera raiva e uma sensação de injustiça. E também um lugar confuso: ser bonzinho e não receber o que seria justo? Ou aprontar, arcar com tudo, e ainda esperar algo em troca? Depois de adulto, eu oscilava entre o rebelde e o certinho. E as minhas relações navegavam nesse mesmo limiar.
O padrão do bonzinho no amor
Quem cresce nesse lugar aprende a se anular para ser aceito, e ao mesmo tempo guarda uma revolta antiga por nunca ser suficiente. No relacionamento, isso vira um jogo cansativo: fazer muito, agradar, engolir, e esperar em silêncio um reconhecimento que raramente chega do jeito imaginado.
Vi esse padrão também na minha família, em avós e pais, cada um com a sua mistura de bondade e falha. As referências de relação passavam sempre por aí: uma imagem que, com o tempo, se desfazia.
A única garantia é o autoconhecimento
Tive dificuldade de me relacionar, porque queria a paz que não tive e, ao mesmo tempo, queria sair do convencional. E um complicado costuma encontrar outro complicado. Mesmo assim, sempre acreditei no relacionamento.
A única garantia para não se ferir não é escolher a pessoa certa, é o autoconhecimento: saber quem você é, os seus valores e limites, e ainda assim se abrir para o novo. Sair do papel de bonzinho não é virar durão. É parar de se anular e começar a se colocar, de igual para igual.
Sim para o Amor
