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Não sei pedir o que eu preciso, e depois cobro por não ter recebido

Ilustração: Não sei pedir o que eu preciso, e depois cobro por não ter recebido

Você teve uma semana horrível e queria colo. Não pediu. Achou que ele fosse notar, porque estava tão evidente. Ele não notou, sentou no sofá e ligou a televisão. No domingo, a frase saiu com uma dureza que você mesma estranhou: "eu poderia morrer nesta casa que ninguém veria".

Esse trajeto é conhecido. Ele começa numa necessidade legítima que não foi dita, passa pela espera, azeda em mágoa e chega em cobrança. E a cobrança, quando enfim chega, é grande demais para o motivo do dia, porque ela vem carregando tudo o que não foi dito nos meses anteriores.

Por que pedir custa tanto

Para muitas mulheres, pedir foi ficando associado a ser um peso. Talvez você tenha crescido numa casa onde os adultos já estavam sobrecarregados, e a criança que menos pedia era a mais amada. Talvez tenha pedido uma vez, do jeito que dava, e tenha ouvido que estava exagerando.

Aí se aprende uma regra que ninguém escreveu: pedir é arriscado, esperar é seguro. O problema é que esperar não é seguro. É só mais lento até doer.

A fantasia de que amor adivinha

Existe uma crença romântica que atrapalha muito casal: a de que, se ele realmente amasse, saberia. É uma ideia bonita e falsa. As pessoas percebem o mundo de jeitos diferentes, e o que grita para você pode ser inaudível para o outro.

E tem um detalhe que a gente costuma trazer nos atendimentos: quando o pedido é atendido depois da cobrança, ele não alimenta. A pessoa faz, você recebe, e continua com um gosto ruim, porque ela fez para acabar com a briga. O que a gente quer é ser cuidado por escolha, e escolha só existe quando houve um pedido de verdade.

Como se pede

Um pedido claro tem três partes e cabe em duas frases. O que aconteceu com você, o que você sente e o que você quer, no concreto.

Compare. "Você nunca está presente" é uma sentença sobre o caráter dele, e ele vai se defender. "Eu tive uma semana pesada e estou precisando de colo. Você senta comigo dez minutos?" é um pedido, e ele pode atender.

Cobrança fala do outro. Pedido fala de você. A primeira gera defesa, o segundo gera resposta.

E se ele disser não

Pode acontecer, e é aqui que muita gente desiste de pedir para sempre. Um "agora não consigo" não é a confirmação de que você é demais. Às vezes é só o estado dele naquele momento, e cabe perguntar quando dá.

Agora, se os pedidos claros, feitos com calma e repetidos, encontrarem sempre a mesma porta fechada, aí você tem uma informação valiosa sobre a relação. E é melhor tê-la do que continuar esperando em silêncio, com a conta crescendo.

Um convite prático para esta semana: escolha um pedido pequeno, desses de dez minutos, e faça em voz alta. Repare no que se mexe em você na hora de falar. Costuma ser ali que mora o trabalho.

Quer dar um passo nesse tema?

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