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O casal e o celular: quando a atenção sai da sala

Ilustração: O casal e o celular: quando a atenção sai da sala

Ela começa a contar como foi o dia. Ele responde "hum", com os olhos na tela, e ainda solta um "eu estou ouvindo" quando ela para de falar. Ela continua mais um pouco, por educação com a própria história, e desiste no meio.

Meia hora depois os dois estão no mesmo sofá, sob a mesma coberta, cada um no próprio aparelho. Do lado de fora parece uma noite tranquila de casal.

Essa cena chega muito na gente. E quase nunca vem como queixa grande. Vem assim: acho que a gente não conversa mais.

A briga que sempre volta

Em algum momento a queixa sai, geralmente cansada e no pior horário do dia.

Aí vem a defesa, que também já está pronta: eu estava resolvendo uma coisa do trabalho, você também fica no seu, eu passei o dia inteiro fora e nem posso descansar em paz.

Os dois têm razão em alguma parte, e é por isso que a discussão não vai a lugar nenhum. Ela termina com alguém pedindo desculpa por cansaço, o aparelho fica virado para baixo por dois dias, e depois tudo volta como era.

O pedido que fica sem resposta

Quando a gente senta com o casal e desmonta essa cena com calma, o que aparece por baixo costuma ser bem simples de dizer e difícil de pedir.

A pessoa quer ser olhada. Quer que o rosto do outro se vire quando ela chega. Quer contar uma bobagem do dia e ver a reação acontecendo no rosto de alguém.

Só que "me olha" é um pedido que expõe demais. Então ele sai fantasiado de reclamação sobre o aparelho, e chega no outro como acusação. Quem é acusado se defende, e o pedido original nunca chega ao destino.

Ninguém disputa com um objeto. A disputa é com o que aparece na tela, que responde na hora, nunca cobra nada e nunca está de mau humor.

Por que a tela ganha com tanta facilidade

Vale entender o adversário sem demonizar ninguém, porque os dois lados fazem isso.

A tela foi desenhada para dar recompensa rápida. Cada deslizar de dedo entrega novidade, e o cérebro cansado do fim do dia agradece. Conversa de casal é o contrário: exige presença, tem silêncio no meio, às vezes puxa assunto pendente.

Repare no que costuma acontecer nas casas onde já existe mágoa acumulada. Quanto mais desconfortável está o clima entre os dois, mais o aparelho vira abrigo. Ele passa a ser o lugar onde ninguém cobra, e por isso o casal que está mal usa muito mais tela que o casal que está bem.

É por aí que o hábito vira sintoma. Quando um dos dois passa a preferir a companhia do celular à companhia de quem está do lado, tem alguma coisa entre eles pedindo conversa há um tempo.

Quando o aparelho guarda outra coisa

A gente precisa nomear isso, porque acontece e ninguém fala.

Existe o celular que fica virado para baixo por hábito, e existe o que fica virado para baixo por causa de uma conversa específica. Senha trocada de repente, aparelho que vai junto para o banheiro, notificação que some da tela de bloqueio.

Se é esse o seu caso, o assunto não é tempo de tela. É confiança, e ele tem outro caminho. A gente escreveu sobre isso em traição emocional, que costuma começar exatamente assim, sem nada que caiba numa acusação.

Três acordos que funcionam

O que a gente vê dar certo não é regra dura, e sim combinado pequeno, feito pelos dois, num momento em que ninguém está irritado.

O primeiro é a chegada. Nos primeiros dez minutos em que um dos dois entra em casa, nenhum aparelho na mão. Só isso já muda o clima de uma casa inteira, porque o reencontro do dia deixa de acontecer pela metade.

O segundo é a mesa. Enquanto a comida está na mesa, os celulares ficam em outro cômodo, e não no bolso. Aparelho no bolso vibra, e o corpo responde à vibração mesmo quando a mão não vai lá.

O terceiro é a cama. Combinem um horário em que os dois largam a tela, e que ele seja o mesmo para os dois. Quando um larga e o outro continua, quem largou fica esperando, e esperar acordado do lado de alguém que está longe é uma sensação bem ruim.

Uma coisa de cada vez. Casal que decide mudar as três na mesma noite costuma abandonar tudo na quarta-feira.

Como pedir sem virar cobrança

Na hora de falar, tire o aparelho do centro da frase e coloque você.

Em vez de "você vive nesse celular", experimente "eu senti sua falta ontem à noite, mesmo com você aqui do lado". Em vez de "larga isso", tente "me conta uma coisa boa do seu dia".

E, se você é quem fica na tela, uma pergunta honesta: o que você está evitando quando desliza o dedo por quarenta minutos? Às vezes é só cansaço, e cansaço é legítimo. Às vezes é uma conversa que você sabe que precisa ter, e que fica mais barata de adiar do que de encarar.

Comecem pela chegada, hoje. Dez minutos, aparelho longe, um olhando para o outro. É pouco tempo e costuma abrir mais coisa do que parece.

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