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O desejo que esfriou: quando o casal vira só companhia

Ilustração: O desejo que esfriou: quando o casal vira só companhia

Vocês se dão bem. Resolvem a vida juntos, riem das mesmas coisas, sabem o pedido de café um do outro. E faz meses que não se tocam com vontade. Quando alguém finalmente fala do assunto, vem constrangimento dos dois lados, porque ninguém quer dizer em voz alta que virou colega de quarto.

Esse é um dos temas que mais chegam à nossa sala, e um dos que menos aparecem nas conversas entre amigos. A gente costuma começar dizendo que isso é comum, e que comum não é o mesmo que sem solução.

O que costuma apagar

Raramente é uma coisa só. Costuma ser um acúmulo: a rotina que virou logística, a mágoa pequena que nunca foi conversada, o cansaço que chega antes do carinho, e um convívio tão colado que sumiu qualquer distância entre os dois.

Desejo precisa de alguma distância. Precisa de um espaço para olhar o outro de fora e vê-lo de novo como alguém, não como a extensão da própria rotina. Casais que fazem absolutamente tudo juntos, que administram a vida inteira em conjunto e nunca têm um assunto próprio, costumam relatar exatamente esse apagamento.

A mágoa cobra no corpo

Existe uma parte que ninguém gosta de olhar. Ressentimento não guardado em algum lugar da cabeça, ele fica no corpo. Quem engole por meses o que incomoda vai encontrar o próprio corpo fechado na hora do encontro, mesmo querendo que esteja aberto.

Por isso, quando o casal reclama de sexo, a gente costuma perguntar primeiro por conversa. O que não está sendo dito? O que ficou atravessado no ano passado e virou assunto proibido? Muitas vezes o desejo volta a circular quando a conversa volta a circular.

O papel de mãe e o papel de filho

Quando um dos dois assume o cuidado administrativo da vida do outro, o desejo tende a cair. Isso vale nas duas direções: a mulher que virou gerente da vida dele, e o homem que trata a companheira como alguém frágil que precisa ser protegida de tudo. Nenhum desses arranjos combina com o encontro entre dois adultos, e é do encontro entre adultos que o desejo vive.

Onde tem hierarquia, o afeto até cresce, mas o desejo mingua.

O que costuma reacender

Não é técnica nova nem lingerie. É voltar a ter algo próprio para trazer para a relação. Um interesse, um grupo, um corpo que você habita e cuida por você. Quem tem vida própria volta para casa com alguma coisa nas mãos, e isso é atraente.

E é retomar o toque sem destino obrigatório. Muitos casais param de se tocar por completo porque qualquer toque virou promessa de sexo, e a promessa gera cobrança. Abraçar por dois minutos sem pressa, sentar perto, dar a mão, isso reabre um canal que se fechou por desuso.

Quando pedir ajuda

Se os dois estão querendo e não conseguem chegar perto, ou se um quer e o outro não quer conversar sobre isso, esse é um bom momento para trazer alguém de fora. Não porque a relação esteja doente, mas porque tem coisas que o casal não consegue enxergar de dentro. A gente já viu muitas relações longas voltarem a se acender depois de duas ou três conversas bem conduzidas.

Quer dar um passo nesse tema?

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