Você lembra do remédio dele. Marca o dentista, escolhe a roupa da festa, avisa que a mãe dele faz aniversário no sábado. Se você não lembrar, ninguém lembra. E quando ele chega à noite querendo carinho, vem aquela sensação estranha que você não sabe explicar e tem vergonha de nomear: não dá vontade.
Essa conversa aparece muito nos atendimentos com casais, quase sempre com culpa. A gente costuma dizer o que a mulher já sente e não formulou: desejo não convive com hierarquia. Ninguém deseja quem cuida da gente como se fôssemos criança.
Como a relação escorrega para esse lugar
Ninguém decide virar mãe do parceiro. Isso acontece por acúmulo de gestos pequenos e bem-intencionados. Ele esquece, você lembra. Ele adia, você resolve. Ele faz de um jeito que demora, você faz do seu jeito que é rápido. Cada uma dessas trocas parece cuidado, e é. Só que juntas elas montam um lugar em que um administra e o outro é administrado.
Do lado dele acontece o espelho disso. Quem é cuidado assim relaxa, entrega e vai deixando de assumir. Não por má fé, por conforto. Depois de um tempo, ele já não sabe onde ficam as coisas na própria casa.
Por que o desejo vai embora
O desejo precisa de duas pessoas no mesmo patamar, com algum mistério entre elas. Quando um dos dois vira responsável pelo outro, some o patamar e some o mistério. Você sabe demais, cuida demais, prevê demais. E o corpo, que é honesto, para de responder.
Ninguém sente desejo por alguém que precisa ser lembrado de tomar o remédio.
A raiz costuma ser mais antiga que a relação
Muitas mulheres que chegam nesse ponto foram, na infância, a filha que segurou a casa. Cuidou de irmão, mediou briga de adulto, virou a confidente da mãe. Ela aprendeu que o amor se prova sendo útil e responsável, e leva essa habilidade para dentro do relacionamento sem perceber. É um treinamento longo, e não se desfaz com uma conversa.
Vale a mesma pergunta do outro lado: quem, na imagem interna familiar dele, sempre teve alguém para resolver? Esse encaixe entre dois padrões não é acaso. Ele funciona bem por muitos anos, até parar de funcionar.
Por onde começar a sair
Não é distribuindo tarefas. Isso é o que a maioria dos casais tenta primeiro, e dura uma semana, porque a lista continua sendo administrada por ela. O movimento real é devolver o processo inteiro: quem faz também lembra, também escolhe, também erra e arca com a consequência.
Isso exige aguentar duas coisas difíceis. Ver algo ser feito de um jeito pior que o seu. E ficar sem o lugar de indispensável, que dói mais do que as mulheres imaginam antes de soltar.
Do lado dele, exige assumir o próprio lugar de adulto na relação, o que também é desconfortável depois de anos de conforto. Nenhum dos dois faz essa virada sozinho, e é por isso que esse é um trabalho de casal.
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