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Quando a mulher assume tudo e o homem some da relação

Ilustração: Quando a mulher assume tudo e o homem some da relação

Ela sabe a data da vacina, o nome da professora, o valor do condomínio e o dia em que o carro precisa passar na revisão. Ele pergunta a ela onde estão as coisas na própria casa. Nenhum dos dois planejou isso, e os dois estão infelizes com o resultado.

Esse é um dos desenhos mais comuns que a gente vê nos casais, e ele quase sempre começa com uma virtude: ela é competente e rápida. Só que competência, quando ocupa todo o espaço, deixa de sobrar lugar para o outro.

Como o encaixe se forma

No começo, ela faz porque é mais rápido. Ele demora, faz de um jeito diferente, esquece um detalhe. Ela refaz. Ele percebe que vai ser refeito e para de tentar. Ela conclui que só pode contar consigo mesma. E os dois passam a viver dentro de uma profecia que criaram juntos.

Repare que não tem vilão aqui. Tem duas pessoas fazendo o que aprenderam. Ela, muitas vezes, foi a menina que segurou a casa e aprendeu que relaxar é perigoso. Ele, muitas vezes, cresceu com uma mãe que fazia tudo e nunca precisou aprender a assumir.

O que o controle esconde

Controlar cansa, e mesmo assim é difícil soltar. Porque enquanto tudo depende de você, você é insubstituível, e insubstituível é um lugar que dá uma sensação parecida com segurança.

Soltar mexe justamente aí. Quando você deixa de ser a que resolve, aparece uma pergunta incômoda: se eu não fizer, eu ainda tenho valor nesta casa? Muita mulher segura o controle a vida toda para não precisar encarar essa pergunta.

O preço para os dois

Ela chega em algum momento à exaustão e à mágoa, com a sensação de carregar um adulto nas costas. Ele chega à sensação de ser um figurante na própria vida, incompetente dentro de casa, e vai buscar lá fora um lugar onde se sente capaz, no trabalho, no esporte, no celular. E aí ela tem mais uma prova de que ele não está presente.

Quem ocupa todos os lugares fica sem ninguém do lado.

Por onde se desfaz

Não é ela fazer menos e ficar olhando dar errado com raiva. Isso é uma armadilha, e só produz a prova de que ele não dá conta.

O movimento é entregar áreas inteiras, com autonomia junto. Ele não recebe a tarefa de levar o filho ao médico, ele recebe a saúde do filho: marcar, lembrar, decidir, conversar com a médica. Vai ser feito de outro jeito. Vai ter falha. E é atravessando essas falhas sem resgate que ele volta a ocupar o próprio lugar.

Do lado dela, o trabalho é interno e é o mais difícil: aguentar o vazio que aparece quando as mãos ficam livres. Costuma vir um desconforto forte, às vezes tristeza, às vezes uma sensação de inutilidade. É exatamente ali que mora a mulher que ela deixou de lado para dar conta de tudo, e é dali que ela volta.

Quer dar um passo nesse tema?

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